Imagens: Garça-branca-grande (Ardea alba), Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus)/Cláudio Gontijo

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Primavera

Dia após dia vamos caminhando através do tempo que já foi nublado.
Hoje o sol já entra em frestas da boa vontade,
e temos o consolo da simplicidade.
Sem desejar aquilo que temos quase conosco,
e não notamos porque nossos passos foram muito largos.






Dia após dia e olhamos dentro da nossa vaidade que já retocamos com frequência,
e agora ficamos aliviados porque, as vezes, a temos visto em gavetas trancadas.
Ficamos sorridentes, em sorriso de verdade,
porque já não temos a necessidade de ver espetáculos contínuos desta vida,
que nunca desejou o palco e os aplausos e, sim, nosso olhar de misericórdia.
Dia após dia, após despertarmos em manhãs que já não nos trazem só as horas,
vamos rezando com mais frequência, pedindo com mais timidez,
querendo só o que nos basta, perdoando sem pudor, amando mais nossas crianças.
Já podemos esperar pela primavera com uma serenidade que nós desperta para as flores que virão,
e não para viagens que talvez nem façamos, com a pompa que um dia planejamos.











Dia após dia, após muitos acenos e conversas, muitos abraços cheios de gratidão e saudade,
já sabemos que podemos nos emocionar repetidas vezes,
que já somos capazes de sermos solidários com aqueles que mal conhecemos.
Porque ainda ontem choramos por aquela ansiedade cruel e inoportuna,
por aquele egoismo que não nos deixava olhar através da janela.
Hoje já temos mais paz e agradecemos com emoção de raízes profundas,
afinal, já somos mais desenvoltos e sabemos o que nos toca com a suavidade da luz tênue,
porque já estamos ouvindo mais , já somos mais felizes.







Imagens: Cláudia Gontijo/Claudio J. Gontijo      Texto: Cláudio J Gontijo

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Histórias do sertão 3:Maria

Com a despensa vazia,
Maria desceu a ladeira; correndo, gritando.
Tinha as sandálias empoeiradas e as unhas tortas.
A fé compunha os olhos úmidos .
Erguia as mãos e agradecia.
O Padre a ouviu e ela foi com Deus.
Desencorajada, ignorada, simplória.
Não pôde encontrar quem a olhasse de frente.
E como não conhecia as letras na folha branca,
teve a notícia, não se sabe como.









 Maria era só louvor.
Agora não tinha fome, só gratidão.
Esqueceu os gemidos daquela única companheira,
as suas tristezas no câncer em um leito do quarto público.
Ela a tinha de volta, e curada, em milagre; corpo e alma.
Carregava nos pensamentos a imagem turva de todos os santos,
e os joelhos dormentes.
Maria das promessas,
Maria das novenas,
Maria das dores,
Maria das súplicas,
Maria de ninguém,
Maria sem registro,
Maria de nada.
Maria de Deus.








Dedico este texto a esta que conheci. Ela própria partiu vitimada por um tumor. Nunca mais a verei, mas não vou esquecê-la. O nome é fictício.

Imagem e texto: Cláudio J Gontijo

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O vazio e a espera

Quando todos se vão em suas necessidades,
tudo parece ficar em silencio, sem fim.
Não se pode tocar uma única mão,
ainda que trêmula.
Um único olhar,
um aceno,
um cumprimento.
É quando percebemos que caminhamos sós.
E,então, chamamos por alguém que queira escutar,
aquele que poderia aproximar-se em discreta caridade,
de olhar tolerante.
De gestos como a chuva que cai mansa,
como o canto distante ao cair da tarde.
- Qualquer um que vá pela calçada,
   por favor, um instante só...
São conversas imaginárias com os que parecem estar ausentes,
abraços de um tempo distante,
vitalidade que julgamos não ter mais.







Escurece,
estamos muito longe de um sono comum.
Ainda mais dolorosa é a escuridão,
que vai nos esvaziando,
do pouco que já não temos,
e do pouco que tememos almejar.
Só nos resta a nós mesmos,
mãos em súplica.
Diante da cruz,
vamos colocando nossos temores,
alimentando-nos diante da esperança.
Haverá ainda alguns dias,
muitos dias,
em algum tempo,
com algum alento.
E vamos conversar em acenos largos,
de janelas abertas.








Texto e imagem: Cláudio J Gontijo



terça-feira, 22 de julho de 2014

O Joio e o Trigo

A natureza expressa a presença do Deus vivo. Flores, rios, pássaros, alvoradas, crepúsculos, mostram-se todos os dias amparados em um silêncio que nos é fundamental. Silêncio para a paz, para a reflexão, para a oração, para a contemplação.  O Criador em sua infinita misericórdia deseja nos mostrar através dos ecossistemas, que precisamos evoluir para entender cada vez mais a sua criação, os biomas e, consequentemente, a nós mesmos.



As flores do Pequizeiro. Imagem: Cláudio J Gontijo/Lassance-MG





Mas assim como os fatores bióticos e abióticos são corrompidos, e vão, assim, perdendo a sua organização para a vida vegetal e animal, nós também somos tentados a nos deixar corromper. O meio ambiente vai se descaracterizando, as espécies vivas vão se extinguindo, a água, o solo e o ar vão se tornando inadequados pelos elementos estranhos, que os poluem e os tornam mais e mais pobres. O ser humano acompanha esta degradação. Vai se prendendo a valores que não são essenciais, que não lhe são próprios, mas ilusórios e de rápida transição. A alma vai se fragilizando, torna-se vazia, ansiosa e, também, pobre. 



O caminho da boa vontade é a jornada da reconstrução. Imagem: Cláudio J Gontijo/Lassance-MG




A disputa que se estabelece pelo que não é perene, pela matéria, divide e enfraquece. De forma contrária, a natureza esforça-se para permanecer unida e se harmonizar, se reconstruir, conectada ao Espírito Criador.




Amor, esperança e fé no retorno à plenitude. Imagem: Cláudio J Gontijo/Lassance-MG




Assim como toda a esfera verde tende a se reciclar para contornar a degradação, nós também, a partir da dor que esvazia, vamos alterando nossas aspirações, vamos nos aproximando novamente da nossa origem sobrenatural, Divina. Vamos reaprendendo a manter a plenitude, da alma e da vida, mesmo em um ambiente hostil. Assim vamos nos fortalecendo contra o mal, vamos caminhando para a retomada de uma jornada que sempre foi conhecida, aquela que nos coloca novamente diante de Deus.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Quando já parecia um gesto melancólico,
de um último suspiro,
um sorriso de olhos lacrimejantes,
a derradeira chance,
quando já tinham esquecido,
e já não se podia enxergar;
pela escuridão,
pela descrença,
pela ironia,
pela amargura,
pela secura,
enxugaram-lhe o suor frio.














As mãos tremeram,
unidas quase em desespero,
mas aliviadas.
Porque estiveram ávidas,
e haviam caminhado sós.
Porque pediram em fervor.
e clamaram por toda uma vida.
Mas agora era dia novamente.








Texto e imagem: Cláudio J Gontijo

quarta-feira, 2 de julho de 2014

O Canário chapinha e os espinhos

Não é possível listar todos os atrativos que a natureza nos mostra em sua vastidão. Sabemos que regras apresentam exceções e que não há limites, dentro dos ecossistemas. As floradas ocorrem em períodos variados, os frutos chegam em maior ou menor abundância, as ninhadas recebem mais ou menos ovos, as cores são múltiplas, os cheiros variados.

Não há exatidão no grande bioma terrestre. Existem espécies  semelhantes, machos ou fêmeas. Existem, também, uma diversidade tão marcante que  não acreditamos que um determinado casal pertence a uma única espécie.



 
O macho, Canário-da-terra, com sua coloração amarela. Imagem: Cláudio J Gontijo/Lassance-MG


O canário-da-terra (Sicalis flaveola), sumido das matas mineiras por um período, é um dos exemplos de morfologias distintas em um casal.  A ciência chama de "dimorfismo sexual". O macho possui coloração amarela viva e a fêmea apresenta-se em tons pardos, acinzentados.

Estes pequenos pássaros alimentam-se principalmente de sementes e sua reprodução é feita em locais variados: buracos na madeira oca, barrancos e, até mesmo, nas casas do joão-de-barro. Neste período a fêmea deposita quatro ovos e os filhotes, a princípio... pardos, voam em três ou quatro semanas.




A fêmea  de cor  parda parece ser de outra espécie quando comparada ao macho. Imagem: Cláudio J Gontijo/Lassance-MG



A imagem, logo abaixo, mostra uma fêmea pousada em um galho da buganvilia. A sua aparência tranquila não é afetada nem mesmo pelos espinhos ao seu redor. É mais um fato curioso que nos mostra a natureza. Uma mistura de sutileza, beleza e perigo. Esta talvez seja uma regra imutável dos ecossistemas e de toda a existência; a certeza de que a vida uniforme e as diferenças caminham lado a lado, de que nem sempre  os caminhos são previsíveis.



                                      O pássaro e os espinhos. Imagem: Cláudio J Gontijo/Lassance-MG