Imagens: Garça-branca-grande (Ardea alba), Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus)/Cláudio Gontijo

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Mico Estrela

Antes mesmo de avistarmos estes mamíferos, primatas ou macacos de pequeno porte, já podemos ouvir o som parecido com um longo e fino assobio. O Sagui, Mico Estrela ou, simplesmente, mico (Callithrix penicillata), habita as matas menos densas, matas ciliares, o cerrado e vem avançando para a vegetação das cidades. É possível encontrá-lo, por exemplo, em algumas árvores altas (pequeno bosque) de uma propriedade semi-abandonada no populoso e movimentado Bairro Caiçara, em Belo Horizonte. 

Estes animais vivem em grupos com média de sete a dez indivíduos. As fêmeas exercem um papel marcante na condução dos membros. Possuem prioridade na alimentação e algumas ficam mais aptas à reprodução, enquanto outras não irão adquirir esta função. Um casal disputará a liderança do grupo. Dentro desta complexa sociedade familiar, ao que parece, a fidelidade é grande. O macho costuma permanecer na companhia da fêmea escolhida até a sua morte. Quando um dos componentes da família está acuado ou doente, todos os outros permanecem alertas.




O sagui prepara-se para ir ao chão, geralmente para capturar insetos ou beber água. Imagem; Cláudio Gontijo/Margem do Rio das Velhas/Lassance-MG




A gestação ocorre em cinco meses e os dois filhotes nascidos mamam até os seis meses de idade. Após mais 18 meses eles podem atingir a maturidade sexual. Os machos costumam carregar os filhotes até que eles adquiram mais destreza. É deles também a função de alimentá-los.




O macho recebe o carinho da fêmea e transporta um dos filhotes. Imagem; web




A alimentação do sagui é muito variada, sendo ele um animal onívoro. Brotos vegetais, frutas, folhas tenras, répteis, pequenos mamíferos, ovos, filhotes de pássaros, formam o seu conjunto alimentar. A destruição do habitat desta espécie tem ocasionado o seu avanço para locais próximos às casas, quando eles arriscam-se em busca de alimento. Contudo devemos ter cautela ao alimentá-los; as substâncias químicas conservantes dos alimentos industrializados poderão causar a sua morte.





O Mico Estrela possui grande agilidade e facilidade de locomoção. Imagem: Cláudio Gontijo/Lassance-MG





Estas espécies vivem na América do Sul e Central, preferencialmente em regiões de clima tropical. O seu tempo médio de vida é de 10 anos. Estes primatas são animais tipicamente silvestres, embora possam ser criados em cativeiro com a autorização do IBAMA. Não é aconselhável domesticá-los; suas reações são imprevisíveis e eles poderão tornar-se ferozes de forma instantânea, atacando até mesmo seus possíveis "donos".


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Esperança







Haverá um instante, lá, bem nas profundezas dos nossos pesares,
em que os joelhos já estarão dormentes,
por súplicas em variadas e desesperadas horas.
Então haveremos de encontrar as mãos, sagradas e sacramentadas, de Deus.
Caminharemos amparados pela vida e pela fé.
Seremos testemunhos, em verdade,
de que a cruz e a luz clarearam diversos momentos de nossas súplicas.
Testemunharemos uma vida de fervor,
em gestos múltiplos de constância e esperança.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Primavera

Dia após dia vamos caminhando através do tempo que já foi nublado.
Hoje o sol já entra em frestas da boa vontade,
e temos o consolo da simplicidade.
Sem desejar aquilo que temos quase conosco,
e não notamos porque nossos passos foram muito largos.






Dia após dia e olhamos dentro da nossa vaidade que já retocamos com frequência,
e agora ficamos aliviados porque, as vezes, a temos visto em gavetas trancadas.
Ficamos sorridentes, em sorriso de verdade,
porque já não temos a necessidade de ver espetáculos contínuos desta vida,
que nunca desejou o palco e os aplausos e, sim, nosso olhar de misericórdia.
Dia após dia, após despertarmos em manhãs que já não nos trazem só as horas,
vamos rezando com mais frequência, pedindo com mais timidez,
querendo só o que nos basta, perdoando sem pudor, amando mais nossas crianças.
Já podemos esperar pela primavera com uma serenidade que nós desperta para as flores que virão,
e não para viagens que talvez nem façamos, com a pompa que um dia planejamos.











Dia após dia, após muitos acenos e conversas, muitos abraços cheios de gratidão e saudade,
já sabemos que podemos nos emocionar repetidas vezes,
que já somos capazes de sermos solidários com aqueles que mal conhecemos.
Porque ainda ontem choramos por aquela ansiedade cruel e inoportuna,
por aquele egoismo que não nos deixava olhar através da janela.
Hoje já temos mais paz e agradecemos com emoção de raízes profundas,
afinal, já somos mais desenvoltos e sabemos o que nos toca com a suavidade da luz tênue,
porque já estamos ouvindo mais , já somos mais felizes.







Imagens: Cláudia Gontijo/Claudio J. Gontijo      Texto: Cláudio J Gontijo

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Histórias do sertão 3:Maria

Com a despensa vazia,
Maria desceu a ladeira; correndo, gritando.
Tinha as sandálias empoeiradas e as unhas tortas.
A fé compunha os olhos úmidos .
Erguia as mãos e agradecia.
O Padre a ouviu e ela foi com Deus.
Desencorajada, ignorada, simplória.
Não pôde encontrar quem a olhasse de frente.
E como não conhecia as letras na folha branca,
teve a notícia, não se sabe como.









 Maria era só louvor.
Agora não tinha fome, só gratidão.
Esqueceu os gemidos daquela única companheira,
as suas tristezas no câncer em um leito do quarto público.
Ela a tinha de volta, e curada, em milagre; corpo e alma.
Carregava nos pensamentos a imagem turva de todos os santos,
e os joelhos dormentes.
Maria das promessas,
Maria das novenas,
Maria das dores,
Maria das súplicas,
Maria de ninguém,
Maria sem registro,
Maria de nada.
Maria de Deus.








Dedico este texto a esta que conheci. Ela própria partiu vitimada por um tumor. Nunca mais a verei, mas não vou esquecê-la. O nome é fictício.

Imagem e texto: Cláudio J Gontijo

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O vazio e a espera

Quando todos se vão em suas necessidades,
tudo parece ficar em silencio, sem fim.
Não se pode tocar uma única mão,
ainda que trêmula.
Um único olhar,
um aceno,
um cumprimento.
É quando percebemos que caminhamos sós.
E,então, chamamos por alguém que queira escutar,
aquele que poderia aproximar-se em discreta caridade,
de olhar tolerante.
De gestos como a chuva que cai mansa,
como o canto distante ao cair da tarde.
- Qualquer um que vá pela calçada,
   por favor, um instante só...
São conversas imaginárias com os que parecem estar ausentes,
abraços de um tempo distante,
vitalidade que julgamos não ter mais.







Escurece,
estamos muito longe de um sono comum.
Ainda mais dolorosa é a escuridão,
que vai nos esvaziando,
do pouco que já não temos,
e do pouco que tememos almejar.
Só nos resta a nós mesmos,
mãos em súplica.
Diante da cruz,
vamos colocando nossos temores,
alimentando-nos diante da esperança.
Haverá ainda alguns dias,
muitos dias,
em algum tempo,
com algum alento.
E vamos conversar em acenos largos,
de janelas abertas.








Texto e imagem: Cláudio J Gontijo



terça-feira, 22 de julho de 2014

O Joio e o Trigo

A natureza expressa a presença do Deus vivo. Flores, rios, pássaros, alvoradas, crepúsculos, mostram-se todos os dias amparados em um silêncio que nos é fundamental. Silêncio para a paz, para a reflexão, para a oração, para a contemplação.  O Criador em sua infinita misericórdia deseja nos mostrar através dos ecossistemas, que precisamos evoluir para entender cada vez mais a sua criação, os biomas e, consequentemente, a nós mesmos.



As flores do Pequizeiro. Imagem: Cláudio J Gontijo/Lassance-MG





Mas assim como os fatores bióticos e abióticos são corrompidos, e vão, assim, perdendo a sua organização para a vida vegetal e animal, nós também somos tentados a nos deixar corromper. O meio ambiente vai se descaracterizando, as espécies vivas vão se extinguindo, a água, o solo e o ar vão se tornando inadequados pelos elementos estranhos, que os poluem e os tornam mais e mais pobres. O ser humano acompanha esta degradação. Vai se prendendo a valores que não são essenciais, que não lhe são próprios, mas ilusórios e de rápida transição. A alma vai se fragilizando, torna-se vazia, ansiosa e, também, pobre. 



O caminho da boa vontade é a jornada da reconstrução. Imagem: Cláudio J Gontijo/Lassance-MG




A disputa que se estabelece pelo que não é perene, pela matéria, divide e enfraquece. De forma contrária, a natureza esforça-se para permanecer unida e se harmonizar, se reconstruir, conectada ao Espírito Criador.




Amor, esperança e fé no retorno à plenitude. Imagem: Cláudio J Gontijo/Lassance-MG




Assim como toda a esfera verde tende a se reciclar para contornar a degradação, nós também, a partir da dor que esvazia, vamos alterando nossas aspirações, vamos nos aproximando novamente da nossa origem sobrenatural, Divina. Vamos reaprendendo a manter a plenitude, da alma e da vida, mesmo em um ambiente hostil. Assim vamos nos fortalecendo contra o mal, vamos caminhando para a retomada de uma jornada que sempre foi conhecida, aquela que nos coloca novamente diante de Deus.