Imagens: Garça-branca-grande (Ardea alba), Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus)/Cláudio Gontijo

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Histórias do Sertão 9: Ana, a costureira













Na jornada que muitas vezes é trabalhosa, nem sempre a fé é companheira. Mas foram poucos os momentos em que a crença se perdeu, pela indiferença. A cada semana reforma-se o mesmo compromisso.  Muitos destes que aguardam em suas casas já não entendem com tanta clareza, outras vezes se movimentam com dificuldade mas mantem acesa a sua fé. Já se passaram quase seis anos neste propósito de visitá-los. Mesmo com o peso da idade eles deixam o portão sem qualquer tranca, eles sempre esperam.

Um dia, um mês, alguns anos. Algumas vezes levamos a certeza de que somos instrumentos. Outras vezes de que é preciso esperar e, assim, poder repartir. Cautela nas orações, silêncio, no interior das casas. 

Dona Ana é uma mulher de olhar sereno. Um olhar tão sereno e calmo que mais parece um sorriso sem exagero. Muitas vezes a sua firmeza e seus gestos silenciosos nos fazem medir as palavras, procurando aquelas que podem afagar com ainda mais afago esta senhora que já viveu mais de oitenta anos.

Ela criou muitos filhos. Naquele tempo havia um povoado de movimento, uma cidade que se iniciava. Uma linha férrea. Muitas vezes não havia nem mesmo um vidro com conta gotas, destas que aliviam uma dor de barriga. Nem uma farmácia. Se um daqueles pequenos adoecesse e a febre não pudesse ir embora com um chá de ervas bem escolhidas, era necessário aguardar o horário do trem. O horário muitas vezes não era o que tinha que ser, o percurso era lento. A paciência e a boa vontade sempre permitia que se chegasse até o doutor. Remediava-se quase tudo, como ela me relatou um dia.

Ela costurava muito. Punha os pés nos pedais da máquina e, muitas vezes, atravessava a noite. Noite escura, com a pouca luz da lamparina. A eletricidade a gerador só haveria de chegar muito tempo depois.

O movimento de viajantes na estação também ajudava muito nas despesas. Quitandas, café, bolo, alimentavam aqueles que aguardavam e, em seguida, entravam nos vagões. Seu esposo era quem vendia o que ela preparava. Ele também viveu muito, aproximou-se dos noventa anos. Após um longo tempo, depois do fim da estação de passageiros, deixou Dona Ana, a quem retrato vagamente nestas linhas. Ela viveu com este seu companheiro de casamento, casamento na Igreja e no cartório, mais de sessenta anos. Houve missa, houve festa, houve uma multidão de todos aqueles que surgiram desta união. 

No início desta semana visitei novamente a sua casa. Visito há mais de quatro anos. Ela reza com a fé que facilitou muitas das suas dificuldades quase sem remédio. Esta que recita comigo as suas preces, já conhece todas as palavras. Ela é forte e aparenta isso com facilidade. Certamente ainda cultiva uma boa memória. 

Mais de quatro anos. Em determinas horas penso que já não posso acrescentar como gostaria a esta mulher que tanto prezo. As vezes pareço experimentar uma luz forte, uma luminosidade que se espalha pela sala. O clarão vem quando fecho os olhos e peço por ela. É quando percebo algo mais grandioso em mim e nesta senhora que faz as orações comigo. E, então, sei que ainda devo continuar, com mais coerência. Um pouco da mesma coerência e atenção que vejo nesta Dona Ana, que se coloca diante deste pequeno altar. 

Vou prestando atenção, observando. Gostaria de experimentar, como experimentou durante décadas a Dona Ana. Vamos então partilhando e fazendo as nossas orações na sala de inúmeros porta retratos. São filhos, netos, bisnetos, oriundos dos seus cuidados dosados e do carinho sem tamanho. 

Esta com quem converso todos esses anos, que clama comigo, também me ensina a querer viver ainda mais.  E, teimosamente, todos desejamos aprender. Assim vivemos. E ela também. Certamente ela conhece o segredo destes anos tão longos. Mas certamente, também, continua tratando tudo e todos como sempre fez, com um amor sem jeito de medir.