Há algum tempo ouvi sons estranhos que vinham dos galhos de uma árvore, um velho Tamboril. Piados repetitivos, numa sequência quase hipnótica. Já era noite alta, escura, de lua crescente. Fui até a árvore, a poucos metros da varanda e foquei a lanterna numa casa de joão-de-barro. Tive uma surpresa. Na pequena porta de entrada uma outra ave se mostrava. Não era quem deveria estar ali.
Disparei a máquina, buscando o foco no clarão efetuado pela lanterna. Ainda surpreso, lembrei-me de que o João-de-barro não costuma reutilizar seu ninho. Sua opção é pela tolerância e partilha. Enquanto seus ninhos resistem às intempéries, vão sendo utilizados por outras espécies de pássaros.
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A coruja-do-campo e a casa do joão-de-barro. Imagem: Cláudio J Gontijo/Lassance-MG |
A ave predadora teria invadido o ninho de outra espécie, buscando pequenos ovos e filhotes? Ou estaria naquele local compondo a reprodução da sua própria espécie ?
Na tarde de hoje, dentro das muitas reflexões, recordei-me do João-de-barro e da Coruja. Lembrei-me novamente da partilha e senti saudade. Vontade de rever muitos e muitos amigos distantes. Personagens de encontros e desencontros, como aqueles pássaros. Espécies difusas, de hábitos alimentares contrários, mas de histórias afins. Propiciadas pela necessidade de sobrevivência, na grande e eterna comunhão ecossistémica.
3 comentários:
Lindo seu blog! Vc expressa sensibilidade. Parabéns!
Perfeito ! É incrível sua forma de narrar os fatos !! É como se eu estivesse ali com uma lanterna na mão, procurando minha câmera pra matar minha curiosidade em relação a ave que ocultamente me fascinava. E realmente a saudade aperta o peito trazendo recordações dos amigos, que há tempos não vejo... ouço.
Beejo*
Um Grande abraço Priscila. Felicidades a todo o momento.
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