Imagens: Garça-branca-grande (Ardea alba), Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus)/Cláudio Gontijo

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

O tempo













Toda a lida trabalhosa de suor e sangue,
todos as conversas convenientes repetidas em qualquer momento, sem hora,
todos as nossas inúmeras preces de pouca demora,
nossos jejuns de quase nada,
agora são pálidos e doentios demais,
porque só os fizemos com um único olhar, sobre nós mesmos.
E se fomos exemplos, desenvoltos, altivos em prosperidade,
agora, pobres,
permanecemos por longos períodos em espera,
do abraço apertado que quase sempre ignoramos,
e até ironizamos.
Já aguardamos o sorriso largo que nunca esboçamos.
Esperamos afoitos em ante salas, em consultórios.
Nossas posses já não nos servem.
Nossos desejos anunciados são, agora, clamores pálidos.
Tentamos afastar a indiferença,
a visão que se turvou para a miséria,
para as enfermidades físicas que nunca foram nossas.
Caminhamos à espera de qualquer paisagem ou alento,
que nos devolva as paixões,
todas aquelas que deixamos germinar em terrenos sofisticados.
Queremos a nós mesmos, mais ainda, a verdade do tempo,
a paz que nunca consideramos.
Esperamos pela esperança que nem nos fazia falta.
E queremos misericórdia.
E queremos mais alguns anos,
algumas chances, ainda que não sejam muitas.
No final estaremos mais marcados pelas rugas,
sulcos profundos,
gestos mais fecundos.
No final seremos mais inteiros e presentes,
seremos o que não cultivamos,
com mais piedade,
com menos vaidade.
Em resumo das horas,
nos veremos na ponte que nos distancia do que realmente nunca nos fez falta.









domingo, 7 de julho de 2019

Unidade da fé










Para que a Igreja se fortifique e se confirme como salvífica, a partir do alicerce de Pedro, ela necessita da comunhão entre aqueles que a compõem. O egoismo impede a fortaleza, a fortaleza só se revela em uma Igreja única, uma Igreja que foi erguida em simplicidade.

O Redentor foi gerado pela Graça, em meio à pureza e simplicidade. Puros e simples são os que procuram esvaziar se de si mesmos através da fé e da caridade, em uma Igreja Santa, Verdadeira.


sábado, 16 de fevereiro de 2019

Caminho






Amo quando olho e cuido com ternura.
Amo quando trabalho pela paz que tiram do outro.
Amo quando desejo tocar, abraçar, todos os que cruzam a minha jornada, esvaziados.
Amo quando renuncio e me volto para os que percorrem o caminho, sozinhos
Amo quando sou grato.
Amo quando partilho, ainda que tenha pouco.
A serenidade me leva à esperança,
a esperança me leva à paz,
a paz me fortalece e me separa do medo.
Sem o medo posso amar com clareza e ardor.
Se não amo não posso contemplar,
se não amo não posso aliviar aquele que clama em dor,
se não amo não posso olhar nem para mim mesmo,
não posso me expressar em verdade,
não posso me entregar à oração.
Se não amo não posso viver em plenitude.








quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Paz












Senhor,
que as minhas mãos se movimentem como as tuas,
que meus olhos enxerguem segundo os teus,
fazei de mim instrumento dos teus desígnios.
Porque sei que o seu tempo não pode ser medido pelas minhas necessidades,
que só me serão concedidas naquilo que plenificará a minha alma,
ainda que muitas orações sejam proferidas,
que muitas súplicas sejam realizadas,
que as lágrimas brotem diante da dor e da emoção.
Fazei de mim, Senhor, um ser que persevere,
na busca pela purificação,
no caminho que liberta da escravidão,
no caminho que nos torna verdadeiramente livres.
Livra-me da culpa que campeia na escuridão,
livra-me da rejeição que enfrento em mim mesmo.
Senhor fazei com que eu procure a cada dia,
pelos simplórios e verdadeiros,
ainda que caminhem distantes de mim.
Senhor fazei crescer em mim a paz que sinto na oração,
no seu devido momento,
segundo a tua vontade,
pela tua graça,
pela tua presença em mim.




quinta-feira, 5 de abril de 2018

A razão e o tempo










Ninguém está acima do bem e do mal. O tempo vai corrigindo tudo o que se desnivela ao sabor da ambição sem lastro. Como a ferrugem, o tempo corrói alicerces metálicos mentirosos. Todas as edificações amparadas nas paredes da corrupção se fragilizam pela sua própria natureza. 

À luz da razão e da própria emoção a arrogância nunca construiu mitos. Estes ídolos toscos não permanecem na história para contá-la em páginas limpas.

Personagens que germinaram pelo oportunismo,  perderam a sua ideologia em cifras que ninguém delimita ao certo. Embora almejassem estátuas em praças públicas e incontáveis homenagens, tornaram-se exemplos de dissimulação, apagados que foram por seu populismo de baixo valor. 

Sempre restará o que foi depositado pela justiça; nas ruas ou nas salas áridas dos tribunais. Restará também o que ficou dos anseios daqueles que se indignaram, daqueles que um dia acreditaram numa proposta que se esvaziou.

Ao final permanece ainda um longo caminho a ser percorrido. As estradas mais almejadas são as mais difíceis de serem traçadas. Ainda assim foram recortadas muitas outras vias essenciais, com todas as suas imperfeições e valetas pseudo partidárias. Todas estas serão as que vão conduzir ao verdadeiro bem estar.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Brinquedo







Já não resta mais nem mesmo o que encantou o teu brinquedo,

agora caminhas pelos torrões e os raios da luz do dia passam pelos escombros.

Mas sei que tens sonhos e carregas o direito de correr longe do que te amedrontas.

Sei que apertas as mãos que já te levaram cuidadosas por ruas de cores e de vida.

Sei também que tens uma voz que pede um afago.

Levaram teus amigos, tua inocência. 

Levaram teus bens que nem todos notavam ao certo mas que compunham a tua infância.

Eram teus todos os pequenos objetos e faziam parte dos dias em que vivias sem medo,

onde não te assombravam a violência dos sons que nunca ouviras antes.

Tuas vestes não foram trocadas e teus pés estão sujos,

tua casa agora foi manchada e violada,

tuas mãos estão sangrando e você se recusa a olhar.

Teu caminho hoje é incerto e a cada dia passas por uma nova esquina,

mas sei que ainda tens direção e que queres encontrar novamente o que levaram de ti.

Sei das tuas súplicas ainda que não saibas os pormenores do que vai recitar,

sei da paz que ainda chegará,

antes da tua compreensão,

antes que termine o teu choro,

ainda antes que se vá o teu derradeiro gemido.