Imagens: Garça-branca-grande (Ardea alba), Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus)/Cláudio Gontijo

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Amigos eternos









Aqueles que um dia se indignaram,
foram verdadeiros em verdade de pesados fardos,
arrastados na escuridão onde ninguém está por perto.
Aqueles que foram flagelados pela indiferença alheia.
Aqueles que se aventuraram pelo trabalhoso caminho da solicitude,
solidários ainda que, diversas vezes, sem qualquer gratidão dos que foram acolhidos.
Nos momentos de uma existência dura e abafada pelos desejosos sem eixo, estes nossos amigos foram anônimos.
Mas foram felizes em uma caminhada de autoconhecimento e paz,
serenos pela fé sem tamanho,
silenciosos em longas jornadas de provações que até justificariam um gemido.
Alguns deles foram chamados, seguiram e nunca mais voltaram para junto de nós.
Eles partiram e determinadas homenagens só ocorreram em meio à comoção,
nos declarados e equivocados sentimentos de que tudo havia terminado, de maneira estúpida.
Mas, por tê-los conhecidos desde um tempo remoto e límpido em nossa memória,
transportaremos a sua presença, viva, junto às nossas crenças,
de que o fim desta vida não é o fim de uma rica existência.


domingo, 25 de outubro de 2015

Farinha-seca, uma bela espécie do sertão.

Há 13 anos atrás, quando adquirimos uma pequena porção de terras iniciadas à margem do Rio das Velhas, notava-se uma área de aproximadamente 12 mil metros quadrados, logo à frente da casa. Esta parte do terreno era utilizada para o plantio de milho. Uma área degradada pela prática de agricultura familiar, rudimentar, sem rotatividade de culturas que pudessem tornar a terra renovada em nutrientes.

A vegetação nativa deste local passou a crescer naturalmente e não foi utilizada para qualquer prática agrícola. Os trabalhadores rurais diaristas a roçavam periodicamente e foram orientados para que não cortassem as espécies de maior porte. Aos poucos foram surgindo, entre outras, as formas, ainda arbustivas, de uma espécie denominada Albizia niopoides, conhecida popularmente como Farinha-seca, natural deste ecossistema.




A área de cultivo transformou-se aos poucos (vegetação em período chuvoso). Imagem: Cláudio Gontijo/Lassance-MG






Esta espécie é pioneira, ou seja, origina-se ocupando áreas pobres em vegetação e em solos desgastados. Ela é comum no Centro-oeste, Sudeste (Minas e São Paulo) e norte do Estado do Paraná. Possui troncos de cor parda, escamosa, com copa pouco frondosa, mas que pode atingir altura de até 20 metros. As suas flores são esbranquiçadas, de tamanho reduzido, dispostas em várias inflorescências globosas que surgem, com os frutos, entre os meses de setembro a novembro. Os frutos são vagens que secam dispersando inúmeras e diminutas sementes de cor escura.




Flores esbranquiçadas da espécie. Imagem: ibflorestas.org.br








Vagens (frutos) secas e as sementes da Farinha-seca. Imagem: web






Aos poucos uma parte desta área foi transformando-se em uma pequena capoeira com várias espécies destas árvores, principalmente. Após cerca de 12 anos aqueles arbustos deram origem a árvores de porte considerável. Acabaram por transformar aquela área de cultivo em um bosque de razoável beleza ornamental.





A espécie nativa em período de chuvas. Imagem: Cláudio Gontijo/Lassance-MG













As Albizias (farinha-seca) já formando um pequeno bosque em período de estiagem. Imagem: Cláudio Gontijo/Lassance-MG




Esta espécie pioneira está ameaçada de extinção, suas flores de aspecto circular com os numerosos estames de cor branca, atraem insetos que promovem a polinização.

Outro detalhe interessante é que a espécie possui uma casca rica em substâncias de poder medicinal popular, usadas como adstringentes e depurativos.




A vegetação nativa em um período de estiagem maior. Imagem; Cláudio Gontijo/Lassance-MG







Uma parte da antiga área de cultivo, em propriedade anexa, e as árvores nativas à direita. Imagem; Cláudio Gontijo























sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Caminho de Deus







Não moldaremos a Fé em uma prática religiosa ritualística e estéril. A Fé nasce da relação íntima com Deus, alimentando-se da caridade, da humildade e da comunhão.

Humildes, adquirimos a certeza de que não somos os únicos escolhidos. Não nos revestiremos de uma armadura que nós fornece a sensação de predileção, porque somos ou fomos virtuosos. Em meio à caridade constataremos que a Misericórdia de Deus é compartilhada por todos. Todos seremos alimentados, chamados a estar próximos do Criador, em Comunhão.

O caminho que conduz à Fé é trabalhoso. Ao longo desta jornada seremos convidados a fazer escolhas que abdicam do egoísmo e da indiferença. A estrada é longa, muito longa, muitas vezes árida, e nos apresenta obstáculos que vão sendo amenizados  na medida em que avançamos para a mansidão e para o amor incondicional.

Durante esta busca abençoada muitos sentimentos purificarão a nossa alma, realçando a nossa procura, tornando-a Sagrada.




Texto e imagem: Cláudio Gontijo

sábado, 15 de agosto de 2015

Providência














Haverá um momento de dores e súplicas,
quando os joelhos se dobrarão por longo tempo,
marcados pela fé, pela perseverança.
Então haveremos de tocar as mãos sagradas,
outrora ensanguentadas,
agora vivas,
de Jesus.



































segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Tecidos






Hoje terminamos e arrematamos mais uma leva do que nos foi enviado.
Costuramos, cuidadosos, com tesoura e agulha.
Fechamos tantos e tantos agasalhos frágeis que necessitavam de reparos.
Alinhavamos toda a mágoa que através dos rasgos mostrava a pele fragilizada.
Fizemos remendos para vestir melhor e libertar os membros dos ressentimentos já velhos.
Braços, mãos, ávidos, que permaneceram expostos ao relento e à indiferença.
E continuamos porque tínhamos a urgência dos que sofrem com a dor alheia.
Cortamos aquilo que percebemos em disposição para a discórdia, com os botões quebrados.
Tingimos para que todas as vestes mostrassem cores de alegria,
cores da alma limpa e perfumada de jasmim.
E pedimos em nossas preces que continuássemos com a chance de reparar sem preconceito,
fazendo de novo novas peças de algodão e esperança,
com todas as tonalidades que nos fosse permitido,
até o fim do dia,
enquanto tecido tivéssemos.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Palavras





Muitas palavras  estão guardadas,
armazenadas e bem arrumadas,
em caixas de papelão,
em estojos de marfim,
em bolsas de múltiplos adornos,
em embalagens de papel de seda,
em embornais de couro cru,
nos cofres de aço,
nas linhas tecidas e bem amarradas
do corpo e da alma.
Se foram ditas, nem todos souberam,
alguns ouviram e maldisseram,
outros silenciaram,
outros ignoraram.
E aconteceu que também idolatraram,
emocionaram.
Porque foram malditas,
engolidas e escondidas,
contidas, distorcidas,
dilaceradas e profanadas,
Cantadas,
recitadas,
talhadas e arranjadas.
E, assim, costuradas ou estranguladas,
perderam-se quando rasgaram como lâminas,
enfeitaram na delicadeza,
perfuraram quando foram pontiagudas e intolerantes,
revitalizaram em gestos de misericórdia,
seduziram em paixões sem tamanho.
Quando vieram piedosas,
acalentaram o choro incontido,
transformaram o chão batido,
ampararam o corpo combalido.



domingo, 12 de julho de 2015

Água e vida

A água é um bem precioso. Se analisarmos a sua função de importância básica e fundamental para a manutenção da vida em todos os organismos vivos, podemos dizer que esta substância tem um valor que não se pode medir. Basta que nos lembremos de que mais de 65% do organismo humano é constituído por água, que ela está presente no líquido intersticial entre as inúmeras células e compõe a parte líquida do seu interior. Os vegetais apresentam mais de 75% deste líquido em sua constituição. Tomate, melancia, pepino, melão, laranja, como exemplos, apresentam mais de 90% de água em sua formação estrutural.  

Somente em nosso corpo a água:
- é veiculo para a manutenção da temperatura corporal.
- elimina todo o material orgânico indesejável através da excreção.
- forma fluídos indispensáveis como: sangue, suor, leite materno, lágrima, urina.
- é campo para inúmeras reações químicas metabólicas que ocorrem em nosso organismo para a manutenção da vida.
- é a via primordial para que ocorra a fecundação. 

Infelizmente a superfície terrestre possui apenas cerca de 2% de água doce em condições de servir os organismos vivos. A maior parte deste volume está congelada nas geleiras e em grandes profundidades subterrâneas da crosta terrestre. Temos, então, menos de 0,5% a ser utilizado.


É preciso considerar que o aquecimento da terra em face ao acúmulo de gases poluentes na atmosfera, produzidos pela indústria e veículos automotores principalmente, está alterando também a temperatura média dos oceanos. Este fator provoca modificações significativas no clima com períodos de redução drástica no índice pluviométrico em determinadas regiões. Quando a época de estiagem termina, a água trazida pelas chuvas não está sendo devidamente incorporada ao solo pois boa parte da vegetação foi retirada e já não há raízes suficientes para retê-la. A evaporação e a infiltração da água para partes mais profundas da crosta terrestre é uma realidade cada vez mais notável.



O leito seco de um córrego. Ribeirão São Gonçalo/Lassance-MG/Imagens: Cláudio Gontijo




Não queremos que este fenômeno continue o seu curso. Podemos fazer parte de um esforço conjunto para a preservação das nossas nascentes e rios. Precisamos evitar o corte indiscriminado de árvores. Esta ação torna-se cada vez mais indispensável e urgente, em face à desertificação crescente do planeta, da região onde moramos, enfim, de todas as paisagens ricas que outrora conhecemos.

Precisamos utilizar a Educação Ambiental para formar uma nova geração mais bem informada, consciente e ativa. Precisamos, cada vez mais, fazer o uso racional da água. Precisamos formar exemplos, sermos exemplo, para um futuro mais promissor. Para que a água continue a promover a vida, em todas as suas formas.

O sertão norte mineiro vive um momento preocupante e triste. Não chove regularmente a três anos, Os cursos d'água estão com seu volume aquífero reduzido a 1/3 da sua capacidade, outros já estão secos (como mostra a figura acima). Cisternas perfuradas pelos moradores a mais de 20 anos, sempre muito eficientes, estão secando uma a uma. Não é mais concebível que o cerrado possa perder mais vegetação. É preciso atenção em relação às florestas artificiais de eucalipto que transformam a paisagem natural, após o corte, em uma área semi desértica, pobre em nutrientes. Vale a pena o alto ganho do produtor com a madeira endereçada à produção de carvão e postes, ao custo da degradação profunda que a sua propriedade certamente irá sofrer? Quanto tempo estas áreas levarão para serem recuperadas? A que custo será possível recuperá-las ?







Esta é a paisagem que queremos. Imagens: Cláudio Gontijo/Lassance-MG



terça-feira, 30 de junho de 2015

Histórias do sertão 6: Raimundo Profeta










Enquanto caminhava, bem cedo, ao lado da manhã fria destes dias finais de junho, os passos se apressavam para que aquela atividade tivesse algum valor como exercício físico, aeróbico, ou seja lá o que podem inventar e chamar. É curioso como temos tempo para as metas que a ilusão vem entregar à porta de casa e que ainda planejamos, pensamos, retocamos, remendamos e requentamos. Não possuímos são os minutos necessários ao que pode ser cadenciado e nos é verdadeiramente essencial. Não que eu esteja livre de qualquer futilidade, mas tenho andado sem relógio nesta rua de nenhum tráfico que seja; nem uma carroça, nem um automóvel, um jumento, um velocípede. Como de costume, não havia muito movimento ali mesmo, naquela rua comprida, larga, que  acompanhava os trilhos de aço da ferrovia, que mostrava as ruínas de uma antiga estação de trens, que tinha bem conservado o seu calçamento de blocos de concreto. E tinha também muitas árvores, Ipês Roxos, por onde vinha o sol através do espaço que se fazia entre a folhagem.

Então veio como que deslizando pelos blocos da avenida o Raimundo Profeta e sua bicicleta muito bem conservada, limpa, de pneus novos e pintura verde. De uma forma quase silenciosa, a sua pessoa se aproximou e a fala quase que nem rompia os poucos ruídos  que iam conosco ao longo daquelas primeiras horas do dia. Ele fez a saudação com a forma contida que estampava ao longo de todos os anos que eu o conheci. A figura de roupas gastas e limpas, as pedaladas cautelosas, chinelos de dedo, o rosto de expressão comum, compunham aquele perfil. Provavelmente eu o avistei muitas e muitas vezes pelos cantos desta minúscula cidade. Mas era a portaria do pequeno hospital o seu lugar. Lá era possível encontrá-lo repetidas vezes, no turno da noite.

Ele segurava o guidão do veículo e vinha falando sobre o que andava fazendo. O discurso mais prolongado só veio diante da minha curiosidade, embora ele não fosse tímido ou econômico nas palavras. O que me parecia era que tinha destino certo, embora não impusesse mais velocidade no seu trajeto. Contou que a sua aposentadoria estava próxima, que já se tinham contados e anotados 33 anos. Com o acúmulo de férias não aproveitadas, folgas e adjacências, ele estaria longe daquela portaria já bem no início de 2016. Disse-me também que provavelmente era um dos mais antigos funcionários da prefeitura, ainda em atividade. Apontou o José das Pimentas como o mais antigo. Afirmou aliviado e muito decidido que foi muito proveitoso que tivesse tido a paciência necessária para permanecer estes anos todos, saltando de setor a setor nos galhos da administração pública. Todos os anos de contribuição previdenciária garantiriam a ele a justa pausa, o descanso calculado, que agora estava nitidamente estampado em seu olhar conclusivo.

A velocidade da sua trajetória diminuiu ainda mais. Com a mesma tranquilidade ele ainda me deixou que tinha mesmo o prazer naquele encontro e entrou no portão que dava acesso ao órgão de tratamento e fornecimento de água. O que faria ali ? Talvez fosse quitar alguma conta em atraso. Não o avistei mais, e nem a bicicleta.

De certa forma, admirei e até invejei aquele momento particular do amigo. A forma simplória e peculiar com que ele aguardava a sua parada definitiva. Não o desligamento oficial do seu labor público, mas a leveza estampada naquelas horas de sol ainda fraco. A certeza adquirida ao longo de todos os anos em que viveu em meio à simplicidade. Vou anotar que adquirimos até magoas e revoltas sem fim nem começo, mas, muitas vezes, pouca certeza. Valorizamos em sentido diminutivo aquilo que temos como tarefas. Até repudiamos a profissão, o ofício, sobretudo nas horas tempestuosas e tediosas, nas abençoadas segundas feiras.

Raimundo construiu seus bons valores quase como um anônimo ou imperceptível para aqueles que se achavam mais indispensáveis e bem aparentados. É bem realidade que este funcionário teve seus inúmeros entraves, teve suas diversas manhãs de pouco ânimo, tomou sol, sim, também tomou sol em múltiplas manhãs juninas, após o turno da noite. E é de se registrar que ele sempre pode iniciar a primavera que vinha amenizar a sua jornada de ferro, após um inverno nem sempre muito familiar. Pareceu-me bem claro, como o dia que ali nos tocava. Do contrário não estaria naquela rua para me noticiar a aposentadoria. O certo de todo este resumo, certo mesmo, é que ali, em meio ao pouco fluxo da Rua Expedicionários, passou por mim um homem, por assim dizer, com o sorriso que não se nota de pronto. O sorriso de alma limpa. Com a felicidade dos que se fazem cada vez mais vivos ao longo das manhãs de sol.  Sim, passou por mim o Raimundo Profeta, já a caminho de uma nova empreitada, de um novo tempo, de uma nova morada.