Imagens: Garça-branca-grande (Ardea alba), Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus)/Cláudio Gontijo

domingo, 11 de dezembro de 2016

Muito pobres



Os caminhos que levam à serenidade não costumam ser serenos. São confusos e cheios de provações, experimentos falhos. Muitos são ilusórios. As jornadas são longas, muito longas, e nos parecem intermináveis. 

Muitos em suas situações tortuosas e viciadas, amaldiçoados, são alguns dos que experimentaram a paz. Durante os seus erros, à margem da existência comum, mantiveram a mansidão e enxergaram a suas imperfeições com paciência. Foi preciso caridade, com os que tropeçavam e consigo próprios.

Aqueles que se contentaram com os seus pertences, mesmo pobres, puderam carrega-los sem qualquer dúvida. Não tiveram a vergonha de expor vestimentas e sonhos simples. Não tiveram medo de mostrar sinceridade, mesmo sob teimosia e descrença.

Após diversas tormentas, sob o solo da miséria, ainda se manteve a esperança.  Muitas formas de preconceitos caíram durante a provação, muitas formas de amizade nasceram do sofrimento, muitas vasilhas de alimento chegaram durante a fome.












domingo, 4 de dezembro de 2016

José Ribamar Ferreira, Ferreira Gullar







"A poesia é a tristeza transformada em alegria". O autor desta frase, José Ribamar Ferreira, partiu hoje, aos 86 anos. Não há como descrever a sua genialidade literária.

Algumas poucas frases deste poema o descrevem, ainda que de forma incompleta:

"Uma parte de mim 
almoça e janta;
outra parte 
se espanta.

Uma parte de mim 
é permanente;
outra parte 
se sabe de repente".

Do Poema: Traduzir-se / Ferreira Gullar

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Grato


Agradeço por continuar a minha jornada. Então, recoloco esta reflexão:


"Já não basta agradecer.
Enquanto envelheço vou lembrar.
Dos irmãos que nunca me serão subtraídos,
da mãe que desejamos guardar longe do tempo e da morte.
Lembro do que ganhei, do que sonhei, do que não fiz, do que nunca serei,do que tenho feito, do que ainda terminarei.
Esqueço o que adiei.
Lembro e rezo, rezo e adormeço.
Acordo e lembro.
Lembro e vivo.
Lembro de quase tudo sem ter que descrever em sofreguidão.
Dos córregos, do cheiro de esterco e das roseiras,
da escuridão silenciosa e ampla na varanda da minha infância,
de onde se tinha poucas imagens e escassos recursos.
Lembro de que nem tinha pressa,
nem conhecimento da urgência no grande relógio ao fim do corredor.
Lembro do que me foi ofertado,
lembro que, então, sorri e segui.
Mas ainda assim dou graças por Ana e Cláudia,
dou graças pelo que ainda posso enxergar.
Dou graças por ter como servir,
dou graças por ter partilhado com os humildes.
Dou graças por ter sobrevivido à caridade dos que se fecham a qualquer aceno.
Dou graças porque pude ver muitos pássaros, flores e rios.
Dou graças pelos que me são necessários e pelos que se acham insubstituíveis.
Dou graças pela fé, pela esperança, pela Graça que ainda teremos".

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Árvores


Imagem: Cláudio Gontijo




Alguns minutos de reflexão em meio ao arvoredo que se deixa movimentar pelo vento, nos daria algumas poucas certezas, mas suficientes para muitas das nossas aflições. Uma daquelas copas, cujas folhas crescem em profusão, já foi um minúsculo e imperceptível grão, uma semente. De forma lenta, muito lenta, ao longo de muitos anos, a sua transformação, após germinar do solo, foi se realizando sem que quase ninguém percebesse. Quando pensamos em muitos anos, melhor seria imaginar que foram milhares de dias e dias, períodos chuvosos e tempos de seca implacável. Esta realização vegetal, porém, nunca deixou de ser progressiva.

Quem já teve a chance e a felicidade de plantar uma árvore, observou como o tempo paciente e sábio, foi edificando o tronco, galhos, folhas. Observou que o tempo trouxe flores. Que o tempo trouxe exuberância, sombra para um dia de sol forte. Se foi capaz de confrontar aquela árvore formada com a imagem, guardada em alguma foto ou banco de dados de um computador, com o minúsculo arbusto que ali já se manteve, pode se surpreender com a força construtiva do tempo.

Nada grandioso e essencial à nossa existência se constrói de maneira imediatista, do dia para a noite, ao sabor do capricho que não deseja a espera. O tempo da criação é imperceptível aos que correm de forma vertiginosa. Há algo de sagrado na espera, há algo de abençoado na simplicidade com a qual a natureza evolui. Evoluímos também assim. Juntando os pequenos grãos, preparando sabiamente a terra, esperando pela vida que germina, em nossos filhos, em nossos projetos, em nossas orações, em nossa fé.

Ah, se soubéssemos com exatidão a fórmula que permite edificar com paciência, seríamos muito mais cheios de gratidão e certeza. Se soubéssemos toda a verdade do que o tempo pode nos trazer, com seu silêncio e leveza, pararíamos mais para dar graças, para glorificar. Se esperássemos com mais calma pelas noites de ventos amenos, vazias de sons, perfumadas pelas flores, teríamos o sono mais reparador. Teríamos mais certeza de que tudo aquilo que plantamos por escolhas sábias e altruístas, um dia estampará diante de nós a beleza de uma grande e forte árvore, em sua majestosa trajetória de vida adulta.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Véu negro




Quando o véu negro cai sobre o nosso olhar,
e nem sabemos,
se vamos experimentar a chuva,
ou ter a grama sob nossos pés,
ou se poderemos continuar,
iremos rir de nós mesmos,
da jornada confusa,
difusa,
quando parecemos pequeninos,
meninos,
no meio do caminho.


E então,
saberemos da sede,
que nem notamos,
e que carregamos,
quando vivemos,
abraçamos,
tocamos.

Respiramos.
Ávidos,
na busca que construímos,
sem bússola

sem fim,
pela  vasta,
bela,

existência,
assim.






sábado, 15 de outubro de 2016

Cruz











Aqueles que riscam a terra, arrastam a sua cruz.
Buscam ser livres,
da doença,
da mágoa,
da assombrosa maldade,
dos desafetos de gosto amargo e rançoso,
das fragilidades que separaram por orgulho.
Grotesco poste em ombros dormentes e prontos para a agonia,
onde agora não se tem qualquer alento,
onde a qualquer momento,
virá a dor que dilacera.
Ainda assim, antes da tortura,
repudiam a dúvida,
a mentira,
a miséria,
porque desejam, em meio ao sangue e água,
a liberdade que redime.
Antes de todo o sofrimento,
livraram-se de imagens que os cortaria em ilusão,
que levaria à escravidão.
Ninguém carregará por eles a madeira tosca e seca,
ninguém limpará suas feridas,
ninguém sentirá a mesma agonia,
ninguém delimitará o caminho traçado pelo rastro sinuoso,
ninguém gemerá por eles.
Só esta jornada é que os elevará,
e conduzirá à leveza,
mostrando o que nunca seria revelado,
transformando o que foi abençoado.





sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Nobreza





Imagem: Cláudio Gontijo




A hipocrisia mascara os sentimentos mais nobres. Eles são como vegetais que necessitam ser cuidados com gotas diárias de componentes líquidos. Para alimenta-los teremos que utilizar de cuidadosa nutrição cujo conteúdo não poderá deixar de ser a verdade. Pacientemente, então, vamos deixando pela longa jornada aquilo que não nos é essencial, optando pela humildade e mansidão. 

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Embrulhos do tempo

Em fevereiro do ano passado escrevi este poema, ou uma reflexão, como puder ser aceito. 



"Entre aqueles que vão percorrendo o caminho,
alguns transportam, embrulhado em papel pardo, as suas mágoas remoídas e encardidas.
São rancores que não puderam ser deglutidos, digeridos, diluídos.
Então são mascados, revividos, repassados, em pequenos pensamentos, em minúsculos acontecimentos, de espíritos miseráveis.
Estes grossos pacotes estão amarrados em barbantes de pouca fé e de descrença.
Ainda que não haja, de pronto, o maior dos remédios,
uma receita preciosa também não virá.
E para que estes pacotes não permaneçam lacrados,
o tempo, e só o tempo, vai desgastando-os,
desbotando o seu conteúdo.
Enganos, equívocos, vão sendo escavados,
como em duras e teimosas pedras.
Até que se percam ao longo da estrada.
Alguns destes corações irão livres,
outros permanecerão quase inertes e embrutecidos".