Imagens: Garça-branca-grande (Ardea alba), Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus)/Cláudio Gontijo

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Calúnia






A calúnia é a tentativa de apagar o que não se pode construir. Estes estão fragilizados, distantes da dignidade. É assim que criam as suas próprias lutas fantasmagóricas.  Apressados e incapazes, não visualizam os benefícios da boa vontade. Uma armadura de rancor é o que resta para ser arrastado em uma jornada penosa e ilusória.

O silêncio e a reflexão, a coragem e a constância, a esperança e a fé,  edificam em torno destes exércitos de dúvida e indiferença, momentos de piedade. A misericórdia do Criador e a tolerância resgatará estes seres escravizados, os chamará à plenitude, e os tornará construtores.

Não podemos pensar em uma caminhada evolutiva, sem levarmos conosco a reflexão a cerca destes que muitas vezes nos entristeceram. Afinal somos todos filhos de uma única e sagrada Criação. Não há como se conceber a comunhão e a paz, quando somos indiferentes aos que se encontram sem qualquer eixo, perdidos pela ira e a maledicência. Não há como enxergar a nossa própria jornada com clareza, se não tivermos a esperança da purificação dos que se distanciam da verdade. O tempo se encarregará de moldar qualquer divergência humana, como o faz até mesmo com as rochas.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Histórias do sertão 7: A cegueira








A alguns meses buscávamos levar a Comunhão Eucarística a uma senhora de quase 90 anos. Simples e de fé cristã, moradora de uma casa de portão verde claro, na periferia, distante do centro da cidade. Os anos que se passaram diante dela, roubaram-lhe lentamente a visão. A cegueira aproximou-se e, subitamente, tirou-lhe o equilíbrio, deixou nela a insegurança demonstrada quando fui visitá-la. Seu semblante era de preocupação e dúvida diante de um estranho que ela não podia verificar a fisionomia.

Antes da minha chegada à sua casa, contávamos quase três meses de tentativas e desencontros junto a um sacerdote que desejava ter com ela uma pausa reconciliatória, em Sacramento de Confissão, antes que ela recebesse a Sagrada Comunhão.  Ele desejava receber sua confissão. Mas o vasto  e difícil território do município, os inúmeros chamamentos e compromissos, não permitiam que o simples encontro entre ela e o religioso ocorresse. Nestas situações trabalhosas tendemos a ser proteladores, talvez agarrados à esperança ilusória de que tudo possa ser resolvido pelo acaso. Mas foi desta maneira, exata, que nos chegou a solução. 

Já quase havíamos deixado aquela idosa cega e o seu desejo de receber a Hóstia. Esquecemos seu nome, seus propósitos, seus pedidos. Até que numa tarde, em outra cidade, eu estava no interior de uma grande igreja. Próximo de mim, mais uma única pessoa. Era uma moça que trazia um terço enrolado ao punho e aguardava num dos inúmeros bancos o momento, também, da confissão com um padre. Nesta cidade vizinha de mais de 35000 habitantes ela resolveu me ceder a vez, de certo por pensar que a minha distância de retorno era maior que a dela. Enquanto mantínhamos aquela espera curta, ela soube da minha caminhada como servo da Comunhão.  E, de repente, me fez um pedido. O pedido para visitar a sua avó na periferia da minha cidade, cidade que já a muitos anos não era mais a sua morada. Mas lá morava a sua vovó que desejava,  há tempos, receber em casa a Hóstia Eucarística. Antes que eu entrasse na sala onde me esperava o religioso, ela teve tempo de me informar que a sua querida velhinha era cega e não podia mais frequentar sozinha as missas.

Não pude guardar o nome daquela neta. Não acreditei que o destino pudesse ter me colocado junto a  aquela mulher de aspecto sofrido, jovem, que me cedeu a vez e me conectou, novamente, à idosa cega. Mas pude perceber, alguns minutos depois, que os anjos de Deus nos colocaram lá, dando continuidade à solicitação daqueles olhos que já não eram funcionais. 

Na tarde de hoje, com a ajuda de uma das suas filhas,  eu levei a senhora até a confissão. Ela vestia, de forma simples e alinhada, digna, um vestido azul. Tinha os cabelos grisalhos penteados e portava a alegria que não somos capazes de detalhar.

Logo, logo, entregarei-lhe a hóstia, e a Comunhão se completará. Logo, logo, levarei a ela o alimento que irá apurar-lhe a visão; a visão que muitos de nós não temos.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Deus





Nós que somos instrumentos de um Ser fecundo e indescritível,
que desejamos a paz ainda que tenhamos sido impacientes,
que queremos proteger a quem amamos mas os ferimos repetidas vezes,
que sonhamos com a amizade eterna e esquecemos os amigos que moram ao lado,
devemos pedir, em oração, a constância.
Nós que avançamos, escolhendo o amor e a piedade,
a misericórdia e a caridade,
a esperança,
a fé,
a verdade e a justiça,
devemos clamar, então, por mais comunhão.
Estas preces nos libertam das ilusões que sorrateiramente roubam o riso.
Porque haveremos de nos deixar invadir, mais e mais,
pela Santidade construtora da boa vontade.
Assim, lentamente, vamos afastando toda a mágoa,
todo o medo,
toda forma de escravidão,
que produz miséria e ruína,
estagnação e descrença,
indiferença e amargura.
E após um longo percurso,
que nunca poderemos entender a extensão,
iremos nos purificar do que é falso,
do que um dia nos fragilizou,
para incorporarmos e vivermos,
definitivamente,
a presença de Deus.




quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Minúsculos





Ao fim do dia, agradecemos.
Ainda que em ousadia, pois pensamos não compor uma única parte do que nos foi ofertado.
Mas como podemos ver da forma necessária, diante da vastidão que se apresenta todos os dias?
Se não conhecemos os propósitos da Criação,
se nos tornamos cegos diante de uma existência infinita,
se não notamos a presença de muitos que desejaram nos facilitar o riso,
se nem sempre fomos serenos e verdadeiros,
desculpem-nos.
Mas, ainda assim, queremos agradecer.






Texto e imagem: Cláudio Gontijo

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Amigos eternos









Aqueles que um dia se indignaram,
foram verdadeiros em verdade de pesados fardos,
arrastados na escuridão onde ninguém está por perto.
Aqueles que foram flagelados pela indiferença alheia.
Aqueles que se aventuraram pelo trabalhoso caminho da solicitude,
solidários ainda que, diversas vezes, sem qualquer gratidão dos que foram acolhidos.
Nos momentos de uma existência dura e abafada pelos desejosos sem eixo, estes nossos amigos foram anônimos.
Mas foram felizes em uma caminhada de autoconhecimento e paz,
serenos pela fé sem tamanho,
silenciosos em longas jornadas de provações que até justificariam um gemido.
Alguns deles foram chamados, seguiram e nunca mais voltaram para junto de nós.
Eles partiram e determinadas homenagens só ocorreram em meio à comoção,
nos declarados e equivocados sentimentos de que tudo havia terminado, de maneira estúpida.
Mas, por tê-los conhecidos desde um tempo remoto e límpido em nossa memória,
transportaremos a sua presença, viva, junto às nossas crenças,
de que o fim desta vida não é o fim de uma rica existência.


domingo, 25 de outubro de 2015

Farinha-seca, uma bela espécie do sertão.

Há 13 anos atrás, quando adquirimos uma pequena porção de terras iniciadas à margem do Rio das Velhas, notava-se uma área de aproximadamente 12 mil metros quadrados, logo à frente da casa. Esta parte do terreno era utilizada para o plantio de milho. Uma área degradada pela prática de agricultura familiar, rudimentar, sem rotatividade de culturas que pudessem tornar a terra renovada em nutrientes.

A vegetação nativa deste local passou a crescer naturalmente e não foi utilizada para qualquer prática agrícola. Os trabalhadores rurais diaristas a roçavam periodicamente e foram orientados para que não cortassem as espécies de maior porte. Aos poucos foram surgindo, entre outras, as formas, ainda arbustivas, de uma espécie denominada Albizia niopoides, conhecida popularmente como Farinha-seca, natural deste ecossistema.




A área de cultivo transformou-se aos poucos (vegetação em período chuvoso). Imagem: Cláudio Gontijo/Lassance-MG






Esta espécie é pioneira, ou seja, origina-se ocupando áreas pobres em vegetação e em solos desgastados. Ela é comum no Centro-oeste, Sudeste (Minas e São Paulo) e norte do Estado do Paraná. Possui troncos de cor parda, escamosa, com copa pouco frondosa, mas que pode atingir altura de até 20 metros. As suas flores são esbranquiçadas, de tamanho reduzido, dispostas em várias inflorescências globosas que surgem, com os frutos, entre os meses de setembro a novembro. Os frutos são vagens que secam dispersando inúmeras e diminutas sementes de cor escura.




Flores esbranquiçadas da espécie. Imagem: ibflorestas.org.br








Vagens (frutos) secas e as sementes da Farinha-seca. Imagem: web






Aos poucos uma parte desta área foi transformando-se em uma pequena capoeira com várias espécies destas árvores, principalmente. Após cerca de 12 anos aqueles arbustos deram origem a árvores de porte considerável. Acabaram por transformar aquela área de cultivo em um bosque de razoável beleza ornamental.





A espécie nativa em período de chuvas. Imagem: Cláudio Gontijo/Lassance-MG













As Albizias (farinha-seca) já formando um pequeno bosque em período de estiagem. Imagem: Cláudio Gontijo/Lassance-MG




Esta espécie pioneira está ameaçada de extinção, suas flores de aspecto circular com os numerosos estames de cor branca, atraem insetos que promovem a polinização.

Outro detalhe interessante é que a espécie possui uma casca rica em substâncias de poder medicinal popular, usadas como adstringentes e depurativos.




A vegetação nativa em um período de estiagem maior. Imagem; Cláudio Gontijo/Lassance-MG







Uma parte da antiga área de cultivo, em propriedade anexa, e as árvores nativas à direita. Imagem; Cláudio Gontijo























sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Caminho de Deus







Não moldaremos a Fé em uma prática religiosa ritualística e estéril. A Fé nasce da relação íntima com Deus, alimentando-se da caridade, da humildade e da comunhão.

Humildes, adquirimos a certeza de que não somos os únicos escolhidos. Não nos revestiremos de uma armadura que nós fornece a sensação de predileção, porque somos ou fomos virtuosos. Em meio à caridade constataremos que a Misericórdia de Deus é compartilhada por todos. Todos seremos alimentados, chamados a estar próximos do Criador, em Comunhão.

O caminho que conduz à Fé é trabalhoso. Ao longo desta jornada seremos convidados a fazer escolhas que abdicam do egoísmo e da indiferença. A estrada é longa, muito longa, muitas vezes árida, e nos apresenta obstáculos que vão sendo amenizados  na medida em que avançamos para a mansidão e para o amor incondicional.

Durante esta busca abençoada muitos sentimentos purificarão a nossa alma, realçando a nossa procura, tornando-a Sagrada.




Texto e imagem: Cláudio Gontijo

sábado, 15 de agosto de 2015

Providência














Haverá um momento de dores e súplicas,
quando os joelhos se dobrarão por longo tempo,
marcados pela fé, pela perseverança.
Então haveremos de tocar as mãos sagradas,
outrora ensanguentadas,
agora vivas,
de Jesus.