Imagens: Garça-branca-grande (Ardea alba), Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus)/Cláudio Gontijo

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Voz











A voz do povo é a voz de Deus. Inúmeras vezes esta frase chegou aos nossos ouvidos, inúmeras vezes nós a repetimos. Qual de nós ouviria a voz de Deus? Quanto maior for o consenso, mais verdadeiro ele será. Ainda assim é possível concluir que a maioria pode ser enganada. É possível ludibriar quando se lida com a falta de esclarecimento, com a carência de informações, com a miséria física.

Assim caminhamos para as eleições municipais. Mergulhados em dúvidas, desconfiados, apreensivos em relação à política partidária. A incerteza quer nos afastar do nosso compromisso maior, o voto. Temos esperança, sentimos repulsa, temos entusiasmo, sentimos dúvida. Mas é provável que outra decisão comum, coerente pelas necessidades de toda natureza, seja a de que nunca precisamos tanto da prosperidade social, cultural e econômica. Nunca necessitamos tanto de melhores escolas públicas, nunca necessitamos tanto de postos de saúde mais equipados, nunca necessitamos tanto de melhores vencimentos para os que tem menos. Precisamos muito de preços competitivos, de lazer sadio. Precisamos da infra estrutura que poderia chamar a indústria, pequena que fosse, para gerar empregos, renda. Que poderia diminuir as diferenças, direcionando mais benefícios. 

Não sabemos qual é a tonalidade da voz de Deus. Mas temos a certeza de que os candidatos aumentaram. Chegaram em número maior, trouxeram múltiplos projetos. Muitos são jovens, possuem idéias renovadas, muitos trazem a experiência que veio com o avanço da idade. O volume de acordos e promessas realizados nos comícios ou nas salas domésticas ainda é o mesmo de muitos anos já passados. Muitos sorrisos continuam carentes de sinceridade, muitos cumprimentos chegam com a necessidade de mais calor.

Talvez nunca chegaremos ao timbre da voz de Deus. Mas a incerteza não pode nos afastar do nosso compromisso maior. É necessário que busquemos uma junção de ideias. É necessário que tenhamos o desejo de ouvir e lidar com a verdade. Porque embora não possamos ouvir essa voz, podemos nos firmar no que sentimos dela. Assim, como sonhadores ou não, como cidadãos presentes ou até mesmo desertores que um dia fomos, com todas as perguntas sem respostas, com as tratativas sem nexo, não podemos adiar o toque que daremos nas máquinas eletrônicas. Se cometermos o erro de justificar a nossa escolha em outras salas eleitorais, estranhas, se efetuarmos a nossa escolha de maneira relapsa, sem qualquer responsabilidade, estaremos nos distanciando de nós mesmos. Estaremos fragmentando qualquer tipo de voz.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Cultivando










Que nós tenhamos a coragem necessária para estampar as nossas crenças,
que afagam e resgatam, em fé pura.
Que busquemos a leveza e a tolerância, sementes simples e únicas.
Que não nos envergonhemos das nossas pequenas posses;
antes, que sejamos mais felizes pelo que trazemos de boa vontade.
Que sejamos capazes de perdoar, de reconhecer a nossa impaciência, de valorizar qualquer afazer.
Que busquemos a fidelidade, ainda que a jornada seja confusa e observemos a ingratidão.
Seguiremos na direção da paz.
O amor será sempre o nosso sentimento mais claro,
como a luz que nos conforta a cada dia,
como as nossas mãos que exalam o calor da amizade,
vívidas pela emoção da graça.
Cultivaremos para sermos fecundos e pela esperança de um tempo justo,
por frutos que alimentem,
afastando a miséria,
a dúvida,
a indiferença,
a vaidade.
Que a colheita nunca deixe de ser repartida,
e que todos possam experimentar mais alegria,
libertos, pelo riso e pela oração.





sábado, 16 de julho de 2016

Imagens: Pássaros II

Os pássaros espalham-se por quase toda a superfície terrestre. Um dos fatores que auxiliam a sobrevivência destas espécies é a sua capacidade de manter a temperatura corporal estável, homeotermia. Outro fator importante é que estes animais possuem o corpo revestido por camadas de estruturas complexas, as penas. Este revestimento externo os auxilia, na maioria das vezes, a manter a impermeabilidade da pele à água.

A possibilidade do voo permite que os pássaros migrem de uma região para outra, sempre que encontram adversidades climáticas, escassez de alimento e o perigo da proximidade de predadores. Este é, também, uns dos fatores que lhes fornecem notável poder de adaptação aos diversos biomas da terra.

A reprodução frequente dos pássaros, em média três vezes ao ano, o curto período de incubação dos ovos e o rápido desenvolvimento dos filhotes são ainda fatores que produzem a enorme multiplicidade destes seres vivos no planeta.





















































Lavadeira mascarada (Fluvicola nengeta), Suiriri-cavaleiro (Machetornis rixosa), Falcão-quiriquiri (Falco sparverius), Alma-de-gato (Piaya cayana), João-de-barro (Furnarius rufus), Canário-da-terra (Sicalis flaveola), Pássaro-preto (Gnorimopsar chopi), Garça-branca-grande (Ardea alba).  Imagens: Cláudio Gontijo

quinta-feira, 14 de julho de 2016

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Aprendizes





Imagem: Cláudio Gontijo





Que a caminhada não nos envergonhe, 
e a caridade nos leve à discrição.
Que a fé nos mostre a coragem, 
e o medo não nos paralise. 
Porque longa é a jornada,
e o aprendizado inadiável.
Inadiável também é o sofrimento,
mas a paz nos chamará.
Não estaremos sós,
não seremos fragilizados pelo acaso,
não teremos a dor constante,
não viveremos em vão.

sábado, 25 de junho de 2016

Sob medida





Imagem: Cláudio Gontijo





Muitos são os que  não acalentam mais o que sonharam durante um tempo distante.
A humildade um dia construída, hoje se espalha pelo chão em ruínas de constrangimento.
Perderam seus amigos de infância e a infância que carregavam.
Perderam a paz que os conduzia em risos e espontaneidade.
Perderam as referências que os possibilitavam ser aquilo que realmente eram.
Os caminhos deixaram de ser singelos e naturais,
e agora tem muitas manchas de superficialidade.
Tornaram-se aplainados, previsíveis, marcados por estranhas ferramentas tecnológicas.
E não oferecem mais o benefício da simplicidade, das formas cruas e verdadeiras.
Conquistou-se mais benefícios e benesses, facilidades, rapidez.
Mas o que parecia prático, deixou menor o tempo em que se caminha ao ar livre.
Aumentaram-se as distâncias,
das manhãs de sol,
das cores das pétalas.
Agora muitas aspirações materiais são sanadas, mas a anestesia chega ao final do dia.
Muitos já não podem contar com os que já abraçaram,
agora só visualizam o futuro que se estampa nas quadros eletrônicos.
Muitos não são mais os mesmos,
e nem querem ser o que de fato são.
As profecias que entram em suas salas informam os padrões,
da próxima estação,
da nova marca,
do que será reformado,
do que puder ser encomendado.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Tempo

Esta é a melhor definição de tempo.















O Tempo  (por Mário Quintana)

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. 
Quando se vê, já são seis horas! 
Quando se vê, já é sexta-feira! 
Quando se vê, já é natal... 
Quando se vê, já terminou o ano... 
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida. 
Quando se vê passaram 50 anos! 
Agora é tarde demais para ser reprovado... 
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. 
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas... 
Seguraria o amor que está à minha frente e diria que eu o amo... 
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo. 
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz. 

A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

sábado, 28 de maio de 2016

Histórias do sertão 8: Dona Calista

Suas mãos são bonitas, disse ela, você terá sorte. Eu nunca ouvi dela uma frase como aquela. Eu não esperava que aquela idosa que carrega quase um século de vida fosse exercitar seus nebulosos dons, visionários ou clarividentes, de maneira  que eu pudesse perceber. Mas a naturalidade que seus olhos miúdos externavam foi capaz de me deter, antes que eu saísse.

Dona Calista, a benzedeira de inúmeros vincos cravados em um rosto de expressão que não se define. Dona Calista com mãos que já foram firmes sobre a fronte de crianças sonolentas e adoentadas. Agora mantinha o lenço atado sobre a cabeça com fios sempre escondidos. Permanecia sentada na cadeira de rodas, tomava o sol já forte da manhã. Suas mãos são bonitas...



Dona Calista. Imagem: Cláudio Gontijo




Sua voz arrastada nasceu, ao que conta, aos pés da Serra do Cabral. Ali viveu seus primeiros anos de vida e continuou naquele grotão junto ao seu companheiro. Viveu para a lida, com os gravetos que carregou para alimentar o fogo, com a enxada atolada na terra fresca, com o machado, viveu também para as rezas fora de hora.

E antes que a velhice e a enfermidade viesse,  arrumou a mudança para a cidade. É bem certo que todos os apuros suportados e aliviados com os inúmeros terços recitados, de pé ou de joelhos depositados no chão batido, produziram nela a fama que se espalhou. Na cidade de minguados recursos e muitos nascimentos, planejados ou não, suas mãos, hoje fracas e trêmulas, afagaram em orações e boa vontade aquelas crianças. Curando, vivendo e sonhando pouco, ela foi abençoando, com as suas repetidas preces. Meninos e meninas, homens feitos, mulheres trabalhadeiras, idosos de idade avançada, crentes, corações cheios de dúvida, e todos os que experimentavam ouvir as suas palavras ajoelhavam-se, inclinavam a cabeça para receber suas ofertas de benzeção.

Com os anos que se foram as estrofes das rezas foram ficando partidas, as pernas já não podiam permanecer firmes sustentando o pequeno corpo. As Ave Marias foram diminuindo. Até que ela entendeu que seu ofício maior e mais afamado ia diluindo-se com as dores no corpo.

Agora eu a encontro, sentada próxima a cozinha, às vezes deitada com algum clamor e gemido. A cada semana ela me recebe, alegre, com queixas que nem sempre entendo.

Nestes dias tenho notado suas mãos fazendo sinais em direção ao seu bisneto de poucos meses. Certamente são gestos de boa vontade, certamente são esboços de fé.

Naquela tarde eu abri as duas mãos diante dela e indaguei se havia algo mais, se a miudeza do seu olhar não era capaz de enxergar mais alguma coisa. Ela apenas repetiu que as linhas da minha mão eram bonitas. E sorriu com aquele seu sorriso escondido.