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Imagens: Sicalis flaveola (Canário-da-terra)/Cláudio Gontijo/Lassance-MG

sábado, 27 de dezembro de 2014

Lapso








Que a luz do dia,
amorteça os temores,
alivie as nossas dores,
favoreça os bons sabores,
desfaça os rancores,
alimente novos amores.
Porque a noite é apenas um sopro,
e o amanhecer vem como um alento.
O pesar é só um lapso,
para que o riso venha como um afago,
a esperança como eterna cor.








Imagem: Cláudio Gontijo/Lassance-MG

domingo, 7 de dezembro de 2014

Histórias do Sertão 5: Dona Losina.






Junto ao amigo, voluntário experiente, abrimos o portão daquela casa simples. Havia uma certa dificuldade para abri-lo, mas ele nunca foi concertado. Continuou emperrando e está lá, assim, até hoje. 

Pela primeira vez eu avistei aquele senhora idosa, negra, com um lenço sempre atado à cabeça e saia longa, rodada. Seus gestos eram mansos e seu rosto, de traços fortes, parecia estampar sempre um sorriso decidido, mesmo quando não sorria de fato. Sua voz trêmula e irregular  alcançava nossos ouvidos como tinha de alcançar. Muitas vezes eu a julgava distante ou com momentos de pouca lucidez; mas eu estava enganado. A cada semana em que retornávamos ela perguntava por um e outro; e tinha os nomes, os fatos e a nossa surpresa. 

Meu amigo seguiu outro caminho, a trabalho, sem ter como retornar. Eu fiquei para continuar a abrir o pequeno portão, todas as quintas feiras. Quase sempre naquele mesmo horário, da mesma forma, os seus 91 anos vinham me receber. Era surpreendente vê-la equilibrar-se, de pé, durante quase toda a pequena cerimônia. Ainda que eu insistisse, ela permanecia assim, sem se acomodar. Em alguns dias, pelo cansaço, por algumas dores, eu a via escorar-se no braço da poltrona.

Com o tempo acostumei-me a contar com a sua recepção. Passei do respeito à admiração. E eu dizia a ela que sempre estaria ali. Dizia não saber quem era o beneficiado. Após a comunhão eu me sentava para uma breve conversa, pois tinha receio ou dúvida de estar importunando-a, mais do que meu amigo viajante. Lá eu tomei o melhor café, comi biscoitos, desfrutei a melhor acolhida; fui afagado e encorajado.

Os meses passaram rápido. Eu soube que o seu coração já não batia como antes. Mas somos desatentos, pensamos ter todo o tempo que queremos. Entendi o aviso médico e mesmo assim continuei abreviando os minutos das visitas, sabendo do retorno semanal. E, hoje, sinto por não ter desfrutado mais daqueles minutos. Porque às vésperas de uma viagem, antecipei o dia da visita e aquela terça feira foi o nosso último encontro. 

O dia amanheceu na manhã de novembro, tocou a música triste, saindo do alto falante da torre. De volta à pequena cidade, eu saltei da cama e tive um pressentimento estranho. E foi exatamente o nome da minha querida amiga que ouvi sair do serviço de som. E lá fui eu visitá-la. Mas ela era apenas um corpo inerte. Já não pode me oferecer as suas orações, não pode justificar a sua partida inesperada e nem me tranquilizar em meus pesares.

Ainda não tinha voltado àquele local. Mas fui até a casa ao lado, de sua filha. Recebi um cartão aonde se lê, junto à sua foto: "Se você pudesse ver e sentir o que eu sinto e vejo nestes horizontes sem fim, nesta luz que tudo alcança e penetra, você jamais choraria por mim. Eu estou em paz". Eu sei que sim, imaginei desta forma. Mas sinto a sua falta. Talvez não tenha mais a chance de lubrificar o portão.