Imagens: Garça-branca-grande (Ardea alba), Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus)/Cláudio Gontijo

segunda-feira, 20 de julho de 2026

domingo, 14 de junho de 2026

Consolar

 

Imagem: casal de canários da terra/Sicalis flaveola/Claudio Gontijo 


Não é fácil achar palavras que curem, 

ainda que em prece e clamor.

É que há temor de que não venha o alivio, 

para a dor,

para o torpor.

Vem então o silêncio.

Silêncio para ouvir, 

gemidos de solidão,

abandono,

aflição,

e de tudo o que ainda está por vir.

Tomara que no silêncio haja intimidade.

bondade.

Tomara que haja respeito, 

mas não apenas,

porque quando já não houver mais palavras,

que venha então esperança,

temperança,

aliança.

E assim ao menos se possa acolher,

e deixar viver,

conviver.

.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Berço

 

  




Nas horas que já avançam,

que não se alcançam,

até que tudo seja doado.

É eterno o jorrar,

sem nada a guardar.

Sem qualquer estanque,

sem desejo de troca,

Os corações vão pelo mundo,

e que sejam acolhidos,

compreendidos.

Orações.

Amor sem fim.

Assim.

Amor que não é vaidoso,

que não desanda.

Amor que não reclama,

não se aflige,

não se proclama.

Amor que é vida,

como a vida quer.

Como a vida vai mesmo ser,

como vier.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Milagre







Só há duas maneiras de viver a vida: a primeira é vivê-la como se os milagres não existissem. A segunda é vivê-la como se tudo fosse milagre.




Albert Einstein 

quinta-feira, 26 de junho de 2025

O espelho

 





Já nem é tão tarde. 

Ainda há tempo para idéias que não sumiram.

Mas agora, não cabe o pessimismo, 

amargo.

Também já está gasta, esfolada, a utopia otimista.

O que fica é um realismo incômodo.

Ele se disfarça, simula indiferença.

Falsa indiferença, de gosto diluído.

E o que esteve escondido, agora vem, 

e constrange.

Falam mal dele.

É uma multidão que foge, 

esconde-se em imagens felizes.

Vem o tempo.

Mais e mais pessoas saem dos espelhos,

em verdades cruas, doídas, 

das fotos sem olhos, com óculos escuros.

Uma multidão cantando,

em gratidão colorida, moída,  

gratidão nas telas virtuais. 

Agora retiram o medo, atrás dos retoques.

Imagens incômodas, penetrantes, que vivem nos momentos de silêncio profundo.

Já não podem ser evitadas.

É o que somos em carne viva.

É dor da qual se desviam, 

mas que estaciona-se diante de nós.

Então, fará bem apalpar o que claramente somos.

Circularão pessoas menos apressadas,

mais sóbrias,

menos falantes,

mais ouvintes.

Menos entorpecidas,

mais nítidas.

terça-feira, 11 de março de 2025

Espírito Santo

 Espírito Santo,

Amor do Pai e do Filho,

inspirai-me sempre,

sobre o que devo pensar,

sobre o que devo dizer,

sobre o que devo calar.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Germinar

 


Se geraram um botão de rosa, um ser vivo, 

nas suas entranhas, 

próprias para os embriões,

se geraram até em seus corações,

 houve serena espera.

São mesmo especiais. 

É por isso que são belas de alma e de cores. 

Vivo e observo, com o passar dos dias, o mistério que cerca o perfume exalado em tudo o que é gerado com ternura.

Vejo mesmo, antes em imagens distorcidas, agora com mais nitidez. 

Nada há o que seja maior que a delicadeza do que germina em amor. 

Ah se eu tivesse compreendido! Passaram-se 50 anos, mas não uma vida inteira. 

Hoje, então, vejo estas coisas em imagens mais límpidas. Refletidas em meus pensamentos. 

E nestes pensamentos, agora desejo cumprimentá-las, 

oferecer um canto,

uma rosa, 

um aplauso.

Mas o germinar é tão grandioso!

segunda-feira, 15 de abril de 2024

Álbum




Imagens,

pardas imagens, 

felizes paragens. 

E estes, 

que nem veremos, 

que nunca tivemos;

hoje nos acalentam, 

teimosos que somos. 

Ainda que por uma ponta do tempo, 

uma migalha nas horas,

ninguém nos fará entrar de novo por estes trilhos,

por aqueles suspiros e risos. 

É quase certo que os queríamos eternos,

ternos,

por dias e dias, 

fraternos.

 Mas agora muitos nem se importam.

Os rostos pareciam mais limpos, e, hoje, 

nem os querem mais. 

Nunca os viram, nunca naquele tempo sorriram.

Dançávamos nestes acordes que até podemos reproduzir,  

mas ninguém se lembra deles.

Eletrônicos recursos,

mostram agora com mais nitidez;

o simples e o simplório.

E hoje, polidamente, dispensamos,

quando machuca o que pensamos.

Mas esta distância é o que gostaríamos de encurtar,

foi feita mesmo no papel de brilho fosco, 

em fotografias pardas,

espalhadas pelo forro de pano tosco,

comuns, misturadas no armário.

E, hoje, como não podemos explicar,

só precisamos vivê-las de novo.




Ao Xará.