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Imagens: Sicalis flaveola (Canário-da-terra)/Cláudio Gontijo/Lassance-MG

domingo, 21 de junho de 2015

A estrada que nos retém e nos conduz







Há seis anos atrás eu fazia semanalmente o percurso de 130 quilômetros que separam Belo Horizonte de Sete Lagoas. Eu já havia sido afastado das salas de aula e readaptado em funções burocráticas nas secretarias das escolas da Rede Municipal de Ensino da Prefeitura de Belo Horizonte e da Rede Estadual de Ensino. Por motivos de saúde passei a experimentar o que diagnosticaram como Ansiedade Generalizada. Este quadro evoluiu de forma crônica e parecia, naquela ocasião, de difícil tratamento. Logo, abandonei a ideia de retornar ao magistério na rede particular de ensino.

Em uma quarta feira de novembro, um dia após eu ter completado 45 anos de vida, se a memória não me confunde, eu voltava da minha lida na Capital. A exaustão e o sono me acompanhavam, o restante da semana ainda precisava ser cumprido em outras escolas de Sete Lagoas. Eram 13 horas de uma tarde quente e úmida. Ao longo da pista dupla da BR 040, o trajeto começou a me parecer lento por demais. O asfalto quente, banhado pelo sol forte, fazia os pesamentos se misturarem àquele momento monótono e interminável. Teimosamente eu vinha me recusando a fazer uma breve parada que fosse. Só 20 quilômetros me separavam de Sete Lagoas e eu logo faria um longo repouso no quarto, com a penumbra e tudo mais que me fosse necessário. Mas não houve tempo, o sono veio ali mesmo, de forma súbita, como já se desenhavam os alertas. O jipe pesado rodopiou várias vezes, como um pião, apoiado unicamente na sua parte traseira, depois de se chocar com a mureta que separava as duas pistas. Após alguns poucos segundos ele estava de volta, caprichosamente, à sua posição normal, com os quatros pneus na pista, abertos e danificados como todo o veículo.

Este momento me veio à memória, nesta manhã de domingo. Sem trazer qualquer cicatriz, qualquer dano físico ou psicológico como resposta relacionada àquela imprudência, estou aqui. Estou de volta à pista imaginária que vou construindo. Vou adaptando-a a esta pequena cidade em que passei a viver. O tempo tratou de me afastar em definitivo do trabalho. Embora nunca mais possa realizar qualquer atividade pública remunerada, fui amparado de forma digna e salvo, sem qualquer arranhão, da morte prematura naquela tarde. 

Como já disse, seis anos já se passaram. Não tenho mais o jipe. Trago algo novo, como todos nós trazemos ao longo dos anos. Mas trago algo especial. Trago a certeza para mim, para aqueles que caminham comigo, de que vou superando e contrariando diagnósticos médicos. Os relatórios, laudos, pareceres diversos, receitas médicas, estão dentro das pastas que os acondicionam nos órgãos de perícia médica. Mas se vida tivessem, viriam novamente à tona para tentar justificar a graça que recebi. A graça do equilíbrio, a graça que a ciência não pode esmiuçar.

Todos os múltiplos quilômetros daquela auto estrada asfáltica de outrora, somaram-se a muitas e muitas pessoas que se preocuparam, buscaram fórmulas químicas medicamentosas, psicofarmacológicas, elencaram teorias diversas, ironizaram, ou foram céticas, somente céticas.









A vida de nossa pequena filha se somou, também, à minha. A vida de minha amada companheira de 25 anos, também veio, como alicerce fundamental. Juntos pelo desejo irretocável de Deus, vamos percorrendo esta nova estrada, nova morada, nova jornada. Temos a paz, o amor profundo, o respeito dos que realmente nos conhecem e a certeza de que sempre seremos abençoados. 

A nossa vontade, por si só, não pode modificar ou renovar a postura de quem quer que seja. Mas o nosso testemunho pode ser um chamado. Este chamado conduz os que percorrem as estradas à esperança e conversão.







Texto: Cláudio Gontijo  Imagens: Alan Fabrício/Cláudio Gontijo

2 comentários:

Alberto Magno Garcia disse...

Querido Irmão.
Assim é o início para cura de qualquer mal. Encará-lo de frente e de cabeça erguida.
Quem nos dias de hoje não convive com seus fantasmas da psiquê?
Agora mesmo, me encontro perdido na imensidão da solidão e depressão em um quarto dessa Big Apple chamada SP.
Absorto na imensidão da internet, involuntariamente encontrei seu blog e me deparei com seu depoimento.
Gostaria de manifestar minha inteira disponibilidade para quando e como precisar.
Espero que ainda tenha meus contatos e sugiro que de alguma forma resgatemos e estreitemos nosso convívio.
Acredito termos muitas experiências para compartilharmos.
Por hora, desejo que esteja em paz com saúde e a família em harmonia.
A filhinha ja feve estar uma mocinha, a conheci de colo lembra?
Fique bem e aguardo seu contato.
Grande abraço a você e sua família.
Alberto

Claudio Gontijo disse...

Caro amigo e irmão.

No dia 14 lembrei-me de você. Poucas vezes deixei de lembrar nestes anos todos. Nossa história é grande e difícil de ser delimitada. O tempo e a distância nos afastaram. Pensei e cheguei a sonhar com a possibilidade de nos reunirmos em Iguatama para comemorarmos os 50 anos. Mas é inútil buscar um encontro com pessoas que vivem contextos de vida diferentes, nós não somos mais os mesmos; esta é a realidade. Mas a saudade é enorme...enorme...

Eu sigo superando as dificuldades, agradeço a Deus pelo equilíbrio que experimento, por ter me integrado, definitivamente, ao caminho da Sagrada Eucaristia, por poder fazer a caridade, por buscar a simplicidade e a paz, e, acima de tudo, por Cláudia e Ana.

Ana Cláudia Rodrigues Gontijo é uma criança muito feliz, inteligente e amorosa; sensível. Completará quatro anos no dia 07 de Janeiro próximo. É linda e saudável. Juntamente com Cláudia, são os maiores presentes que recebi na vida.

Deixo o meu email para que você disponibilize o seu telefone fixo e celular. Numa troca de aparelho perdi a maior parte dos meus contatos.

Fiquei feliz ao me deparar com a sua mensagem. Embora estejamos em vidas bem distintas, ainda caminhamos juntos, de alguma maneira.

Um abraço fraterno. Que Deus possa iluminar, sempre, o amigo e toda a sua família.


gontijocj@yahoo.com.br