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Imagens: Sicalis flaveola (Canário-da-terra)/Cláudio Gontijo/Lassance-MG

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Histórias do sertão 7: A cegueira








A alguns meses buscávamos levar a Comunhão Eucarística a uma senhora de 83 anos. Simples e de fé cristã, moradora de uma casa de portão verde claro, na periferia, distante do centro da cidade. Os anos que se passaram diante dela, roubaram-lhe lentamente a visão. A cegueira aproximou-se e, subitamente, tirou-lhe o equilíbrio, deixou nela a insegurança demonstrada quando fui visitá-la. Seu semblante era de preocupação e dúvida diante de um estranho que ela não podia verificar a fisionomia.

Antes da minha chegada à sua casa, contávamos quase três meses de tentativas e desencontros junto ao padre, que desejava ter com ela uma pausa reconciliatória, em Sacramento de Confissão. Mas o vasto  e difícil território do município, os inúmeros chamamentos e compromissos, não permitiam que o simples e rápido encontro ocorresse. Nestas situações trabalhosas, tendemos a ser proteladores, talvez agarrados à falsa esperança de que tudo possa ser resolvido pelo acaso. Mas foi desta maneira, exata, que nos chegou a solução. 

Já quase havíamos deixado aquela idosa cega e o seu desejo de receber a Hóstia. Esquecemos seu nome, seus propósitos, seus pedidos. Até que numa tarde, em outra cidade, eu estava no interior de uma grande igreja. Uma moça que trazia um terço enrolado ao punho, aguardava num dos inúmeros bancos o momento de conversarmos, também em confissão, com um sacerdote. Nesta cidade vizinha ela resolveu me ceder a vez, de certo por pensar que a minha distância de retorno era maior que a dela. Enquanto mantínhamos aquela espera curta, ela soube da minha caminhada como servo da Comunhão Cristã. E me fez um pedido. O pedido para visitar a sua avó na periferia da minha cidade, cidade que já a muitos anos não era mais a sua morada. Mas lá morava a sua vovó, que desejava,  a tempos, receber em casa a Hóstia Eucarística. Antes que eu entrasse na sala onde me esperava o religioso, ela teve tempo de me informar que a sua querida velhinha era cega e não podia mais frequentar sozinha as missas.

Não pude guardar o nome daquela neta. Não acreditei que o destino pudesse ter me colocado junto a aquela mulher jovem, que me cedeu a vez e me conectou, novamente, à idosa cega. Mas pude perceber, alguns minutos depois, que os anjos de Deus haviam promovido aquele encontro, dando continuidade à solicitação daqueles olhos que já não eram funcionais. 

Na tarde de hoje eu levei a senhora até a confissão. Ela vestia, de forma simples e alinhada, digna, um vestido azul. Tinha os cabelos grisalhos penteados e portava a alegria que não somos capazes de detalhar.

Logo, logo, entregarei-lhe a Hóstia, e a Comunhão se completará. Logo, logo, levarei a ela o Alimento que irá apurar-lhe a visão; a visão que muitos de nós não temos.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Deus





Nós que somos instrumentos de um Ser fecundo e indescritível,
que desejamos a paz ainda que tenhamos sido impacientes,
que queremos proteger a quem amamos mas os ferimos repetidas vezes,
que sonhamos com a amizade eterna e esquecemos os amigos que moram ao lado,
devemos pedir, em oração, a constância.
Nós que avançamos, escolhendo o amor e a piedade,
a misericórdia e a caridade,
a esperança,
a fé,
a verdade e a justiça,
devemos clamar, então, por mais comunhão.
Estas preces nos libertam das ilusões que sorrateiramente roubam o riso.
Porque haveremos de nos deixar invadir, mais e mais,
pela Santidade construtora da boa vontade.
Assim, lentamente, vamos afastando toda a mágoa,
todo o medo,
toda forma de escravidão,
que produz miséria e ruína,
estagnação e descrença,
indiferença e amargura.
E após um longo percurso,
que nunca poderemos entender a extensão,
iremos nos purificar do que é falso,
do que um dia nos fragilizou,
para incorporarmos e vivermos,
definitivamente,
a presença de Deus.